Sérvio Túlio contextualiza a parceria Bertold Brecht-Kurt Weill na Alemanha dos anos 1920-1930 e indica três boas gravações de canções. Ele é cantor e produtor musical, especializado em repertório de cabaré alemão, e também programador da rádio MEC FM do Rio de Janeiro.
Bertolt Brecht revolucionou a linguagem teatral colocando seu teatro a serviço da desmitificação. Exigia, em primeiro lugar, que o ator mostrasse o personagem e não apenas o representasse. No mundo da música, este espírito instalou-se principalmente em suas parcerias com os compositores Kurt Weill e Hanns Eisler.
Com Kurt Weill, Brecht criou um vasto e original universo musical que nos revela muito sobre a agitação social, política e cultural que impregnava a atmosfera da Berlim na época da República de Weimar. Weill imprimia em sua escrita musical uma ampla referência à música popular tocada nos clubes noturnos e cabarés das esfumaçadas noites de Berlim, enquanto o texto de Brecht funcionava como uma poderosa arma de crítica social.
Escolhi três obras bem significativas da parceria Weill-Brecht, cada qual com uma canção emblemática.
Canção “A balada de Mac Navalha” (“Die Moritat vom Mackie Messer”), de “A ópera dos 3 vinténs” (“Die Dreigroschenoper”)
A “A ópera dos três vinténs” estreou em agosto de 1928, no Theater am Schiffbauerdamm, em Berlim, um teatro pequeno, não uma casa de ópera. Nenhum dos cantores do elenco original era profissional do mundo lírico. Os papéis principais foram criados para atores de teatro, cabaré ou operetas. A canção “Die Moritat vom Mackie Messer” – “A Balada de Mac Navalha”, tem sido gravada e regravada por personalidades da música de concerto, do jazz e da música pop. Nessa canção, um cantor de rua narra os feitos abomináveis do criminoso Macheath, em cuja ficha negra constam roubo, assassinato, estupro e outras coisas mais.
Uma gravação importante da “Ópera dos 3 Vinténs" foi realizada nos anos 1950 por Lotte Lenya. Após a morte de Weill, Lotte Lenya, atriz, cantora e esposa do compositor, reuniria um elenco para registrar, na íntegra, esta e outras obras da parceria Weill-Brecht. Esta gravação de 1958 traz no elenco: Erich Schellow, Willy Trenk-Trebitsch, Trude Hesterberg, Johanna Von Kóczian, Wolfgang Grunert, Inge Wollfberg, Lotte Lenya e Wolfgang Neuss. Coro e orquestra sob a direção de Wilhelm Brückner Rüggerberg. Supervisão de Lotte Lenya.
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Canção “Alabama Song”, da ópera “Ascensão e queda da cidade de Mahagonny” (“Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny”)
A ópera é uma sátira política que estreou em Leipzig, em 9 de março de 1930. Ela narra a história de três fugitivos encurralados no deserto que decidem fundar ali uma cidade chamada Mahagonny, arapuca que tem como isca o prazer. A canção “Alabama Song”, cantada irônica e originalmente em inglês, é encenada logo no primeiro ato pela prostituta Jenny e suas companheiras, também garotas de programa que chegam à cidade em busca de bebida, fregueses e dólares.
Uma gravação importante da canção “Alabama Song” está também entre os discos da série gravada por Lotte Lenya nos anos 1950. É a versão completa da ópera que traz no elenco a própria Lenya, Heinz Sauerbaum. Gisela Litz, Hörst Günter, Georg Mund, Fritz Göllnitz, Sigmund Roth, Peter Markwort e Richard Munch. Coro da Rádio do mNorte da Alemanha e orquestra sob a direção de Wilhelm-Brückner-Rüggeberg.
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Canção “Bilbao Song” (“Der Bilbao Song”), do musical “Happy End”
A ação deste musical se passa nos Estados Unidos em 1929, antes do crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque. O cinema começava a ser sonorizado, Hollywood ditava costumes e a Lei Seca servia como mote para os então recém-nascidos filmes sobre gângsters. “Happy End” foi idealizado nesse espírito, sobre texto de Elisabeth Hauptmann e letras de Bertolt Brecht musicadas por Kurt Weill. A esteia aconteceu n Berlim no Theater am Schiffbauerdamm, em 2 de setembro de 1929. Na canção “Der Bilbao Song”, o protagonista nos descreve o ambiente do famigerado Bar do Bill, um dos estabelecimentos mais mal freqüentados de Chicago – lugar que, segundo a narrador, “não sei bem se te agradaria, mas mesmo assim, era o bar mais lindo do mundo!”
Ainda com Lotte Lenya, em gravação dos anos 1950, tanto a “Bilbao Song” como todas as canções do musical “Happy End” estão no CD lançado pela Sony, que também traz as canções de do balé cantado “Os Sete Pecados Mortais”, também fruto da parceria Weill-Brecht
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