"Tenho de confessar que sempre levei uma vida dupla. Oficialmente sou casado com o violão, mas tenho uma paixão por música que não poderei jamais tocar, pois não tem nada a ver com a linguagem do violão. É o caso do compositor que estou amando agora, Elgar.
Não há nada mais anti-violão que as texturas suntuosas e a psicologia complexa de Elgar. Todo mundo pensa nele como um compositor de “Pompa e Circunstância”, mas a maioria das obras dele mostra um homem apaixonado, nostálgico, cheio de temores e amarguras, que se lamenta por um mundo em colapso. É o mundo do oratório “The Dream of Gerontius” e do “Concerto para Violino”, que tenho ouvido mais que qualquer outra obra nas últimas semanas.
Há uma gravação com o próprio autor regendo, com Yehudi Menuhim aos 16 anos de idade como solista, sublime, comovente. Para quem não aguenta ouvir gravações apagadas de há quase 100 anos, há uma outra gravação clássica, de Nigel Kennedy antes de virar jazz, regida por Simon Rattle. Tenho muito afeto por Elgar, inclusive foi o compositor que escolhi para meu trabalho final no curso de regência em Londres, quando dirigi as “Variações Enigma”.
Já na estante do violão, estou trabalhando sobre o concerto de Francis Hime, que vou estrear e gravar com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo agora em novembro (dias 19, 20 e 21). Para mim, aprender uma obra híbrida como essa dá mais trabalho que aprender a obra inteira de Bach, porque me falta a vivência do violão popular. Mas estou tentando soar “autêntico”. O Francis é bêbado de harmonia, não há acordes mais lindos na música popular brasileira que aqueles que ele compôs, e estão todos eles neste concerto. Fico até meio mareado quando o estudo. Acho que o público vai se surpreender."
Ouça um trecho do primeiro movimento do “Concerto para Violino”, de Elgar, com o violinista Yehudi Menuhin e a Orquestra Sinfônica de Londres:




Comentários