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Quarta-feira, 20/08/2008

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Entrevista com Nelson Freire



É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?

NELSON FREIRE – Essa década me trouxe coisas maravilhosas. Muito importante foi ter voltado aos estúdios de gravação. Assinei um contrato com a gravadora Decca e ganhei diversos prêmios com os discos lançados. Os dois concertos de Brahms com a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig sob regência de Riccardo Chailly venceram em duas categorias: melhor disco de concerto e melhor disco de 2007 pela revista inglesa “Gramophone”. Tivemos muitos prêmios na França também.

Em 2000, aconteceu a minha estréia na Rússia – em São Petersburgo – minha estréia no Carnegie Hall, por incrível que pareça eu nunca tinha tocado lá. Outro fato importantíssimo foi o documentário que João Moreira Sales filmou. O filme tem o meu nome e foi lançado em 2003. João conseguiu um milagre. Eu fujo de publicidade como o diabo foge da cruz. Quando ele quis fazer um filme, minha reação foi dizer: “Não acho possível”. Ele respondeu: “Deixa eu só te filmar”. E assim fez. O documentário me transformou de um pianista conhecido em uma figura popular. Só mesmo o João poderia ter feito. Foi muito bom. Um outro marco de que me orgulho não é musical. Foi ter deixado de fumar após 45 anos. Aconteceu em abril de 2004: de um dia para o outro, deixei de fumar. Não voltei, não precisei de remédio e, já que todo mundo engorda quando pára de fumar, resolvi emagrecer. Perdi dez quilos.


Algum sonho em especial que tenha realizado nessa década?

NELSON FREIRE – Nunca sonho com aspecto profissionais. Meus sonhos são de outra natureza. Mas o fato de eu ter gravado os estudos de Chopin são um grande motivo de orgulho.


Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?

NELSON FREIRE – Talvez a decisão de voltar a gravar. Mas as coisas não são assim, decididas. Elas acontecem. Com os discos, me procuraram e aceitei.


O que o Nelson Freire de hoje diria ao Nelson de dez anos atrás?

NELSON FREIRE – Não diria coisa alguma. Aconteceram coisas tão boas que ficaria quieto.


Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.

NELSON FREIRE – Poderia citar o encontro com o maestro italiano Riccardo Chailly, com quem eu nunca havia tocado antes. Começamos a tocar juntos e nos entendemos muito bem. Já fizemos vários concertos e há previsão de turnê com a Gewandhaus em 2010 pelos Estados Unidos. Devemos gravar outros discos juntos.


Tem planos para a próxima década?

NELSON FREIRE – Não gosto de fazer planos, nem penso muito a respeito. As coisas não estão mesmo ao nosso alcance. Elas acontecem quando têm que acontecer .


Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?

NELSON FREIRE – O cenário musical brasileiro já esteve bastante pior do que hoje, mas também houve épocas em que estava melhor. Estou otimista com o quadro atual, acho que está melhorando. Acho fantástico o trabalho realizado pela Osesp nesta década. Mais recente, a OSB no Rio de Janeiro tem se reestruturado. Essa concorrência no bom sentido, um querendo fazer melhor do que o outro, é importante. Quem sai ganhando é o públio.


Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?

NELSON FREIRE – Gosto muito de ler a revista mensal AGENDA VIVAMÚSICA!, imprescindível no Rio de Janeiro. Sempre que chego ao Rio, procuro pela revista na minha correspondência. Houve boas revistas de música no início do século 20, os jornais publicavam seções musicais completas, com críticas e comentários. O panorama hoje é bem diferente e é muito importante que uma revista como a AGENDA exista. O ANUÁRIO VIVAMÚSICA! também é imprescindível, com todos os endereços, os contatos de conservatórios, orquestras e tudo mais. Gosto muito da seção que traz os mapas e recursos técnicos das principais salas de concerto. Este tipo de publicação existe em outros países e realmente fazia falta no Brasil.




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