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Quarta-feira, 20/08/2008

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Entrevista com Luiz Fernando Malheiro



Como estava sua carreira em 1998? Onde você estava e quais eram seus planos então?

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – Para mim, 1998 foi um ano de transição. Havia me desligado do Theatro Municipal de São Paulo no ano anterior, após uma ligação muito longa e de muito impacto. Eu estava avaliando o que fazer, para onde ir. Passei 1998 como freelancer. Além de alguns concertos avulsos no Brasil, regi a ópera “Maria Tudor”, de Carlos Gomes, em Sofia, na Bulgária. Também foi o ano em que regi no Brasil uma outra produção de Gomes feita na Bulgária, a ópera “Fosca”. As duas montagens foram registradas em CD. A “Fosca” veio para o Brasil com uma produção completa com orquestra, coral, cenário, figurino, solista – todos búlgaros. Fizemos espetáculos em São Paulo, Belém e Manaus. Essa montagem me levou a conhecer as pessoas da secretaria de cultura. Daí ter surgido o convite do governo do estado para que eu assumisse a direção artística do Festival Amazonas de Ópera a partir de 1999. O festival tinha sido criado em 1997 por um violinista alemão que sugeriu a realização do evento. As duas primeiras edições foram idealizadas e dirigidas por este rapaz, eu nem cheguei a assistir.


É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – As oportunidades de montar e deixar gravadas “Fosca” e “Maria Tudor”, pois Carlos Gomes sempre me interessou. A vinda para Manaus em 1999. O primeiro festival foi determinante. Logo no contato inicial com a Amazonas Filarmônica e com a equipe técnica percebi as possibilidades para implementarmos um trabalho sério com relação a ópera, criar um novo mercado, um novo eixo, um novo pólo de produção musical e operística fora de São Paulo e Rio de Janeiro. Após o festival de 2000, surgiram dois convites importantes. Assumir definitivamente a Amazonas Filarmônica como titular e assumir o cargo de diretor musical no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O Municipal foi um convite de Dalal Achcar, uma surpresa inesperada. Fui com o pé atrás e acabei me envolvendo e me apaixonando pelo teatro e pela orquestra e pelo coro. Até meados de 2002, dividi o tempo entre Manaus e Rio. Foram anos extremamente importantes para meu desenvolvimento artístico, para ampliar relacionamentos e mudar minha cabeça esteticamente. A montagem de “O Guarani” no festival de 2000 levou a um convite para aprsentar a ópera no Teatro São Carlos em Lisboa. Reger lá foi muito significativo. Começaram a surgir convites para trabalhar na Europa. Em 2001, no centenário de morte de Verdi, pude fazer “Simon Boccanegra” no Rio e na Romênia. Em 2001, a montagem de “Manon” no festival, o primeiro trabalho como diretor cênico inglês Aidan Lang. Ali começou a nascer a idéia da Tetralogia de Wagner. O “Anel” transformou-se no centro das minhas atenções artísticas até termos feito tudo. Em 2001 e 2002, houve uma transformação grande no fazer do festival. Mudei o pessoal de produção e com isso conseguimos dar um upgrade significativo. Em 2003, veio a independência da produção. Até então, a secretaria contratava empresas produtoras de fora que produziam o festival e entregavam um pacote quase pronto. Naquele ano, comecei a permanecer mais em Manaus. O festival começou a ser produzido totalmente por nós mesmos, dentro da estrutura da secretaria de cultura. Resultou em melhor música e melhor técnica. Vieram investimentos na central de produção para construção de cenários, figurinos e manutenção das produções guardadas. Possibilitou o começo do contato com outras casas de óperas no Brasil e no exterior para intercâmbios, co-produções etc.


Dez anos atrás você se imaginaria onde está agora?

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – As experiências no Brasil costumam ser de curta duração. Eu dificilmente acreditaria que fosse permanecer à frente do festival tanto tempo e que ele tivesse um crescimento paulatino a cada ano.


Algum sonho em especial que tenha realizado nessa década?

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – Realizei muitos sonhos em termos de repertório. Sempre achei Carlos Gomes injustiçado. Ainda não estou satisfeito com o que já fiz, mas ao menos consegui reger “O Guarani” na versão completa. Ainda quero voltar a essa partitura e deixar um registro sonoro. A “Tetralogia” foi a realização de um grande sonho que dificilmente eu pensaria realizável em tão curto prazo. Quando fui assistente de outros maestros brasileiros, tentei convencê-los a fazer uma tetralogia e nunca alguém quis. Hoje fico feliz por ninguém ter aceitado. Acabei fazendo eu mesmo. Um sonho realizado no dia-a-dia foi ter possibilitado situações para pessoas em quem acredito mostrarem seus talentos, consegui abrir uma pequena porta e elas seguiram em frente. Em 2008, completo cinquenta anos de vida e 25 de carreira. Sou muito crítico e raramente fico contente com resultados, sempre vejo muita coisa a ser melhorada. Resolvi curtir esse meu ano 50: olhando para trás, vejo muita coisa boa. Estou comemorando todos os dias.


Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – Casar com Flávia Furtado. Ela é pianista, foi aluna de Linda Bustani. Estudou na Bélgica, fez faculdade de comércio exterior e trabalhou comigo no Municipal do Rio. Estamos juntos desde 2002. Hoje, Flávia tem uma participação importantíssima na produção executiva do festival. A tranqüilidade, a cumplicidade e a parceria que ela possibilita são fundamentais na minha vida.


O que o Luiz Fernando Malheiro de hoje diria ao Malheiro de dez anos atrás?

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – Que fizesse menos bobagem.


Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – Foram vários. Além de injusto, definir um só não seria verdadeiro. Nas minhas atividades artísticas e musicais, equipe é fundamental. O maestro Marcelo de Jesus tem sido uma pessoa essencial em Manaus. Temos muita afinidade e cumplicidade artística. A parceria com Aidan Lang é especial. Fizemos “A Sonâmbula” no Municipal do Rio em 2001, depois a “Manon” no festival e no Teatro Alfa de São Paulo, e finalmente a Tetralogia em Manaus. Um encontro feliz foi com o diretor Caetano Vilela, com quem fiz em 2006 a “Lady Macbeth de Mtzensk”, de Shostakovich, sempre gostei muito e estava inédita no Brasil. Este ano estamos fazendo “Ariadne auf Naxos”. Além de Eliane Coelho, uma grande artista que acho pouco prestigiada no Brasil. Ela foi a Lady Macbeth ano passado.


Tem planos para a próxima década?

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – 2010 é o limite que eu me permito. Em termos de Festival Amazonas de Ópera, ano que vem será totalmente dedicado ao repertório francês. A ligação do Brasil musical com a França musical foi enorme no século XX, o repertório francês é muito rico e pouco realizado aqui no Brasil. Fui procurado pela equipe da França encarregada da parte musical desse Ano França no Brasil em 2009 e o festival vai fazer parte oficialmente dessas comemorações. A cantora espanhola Nancy Herrera fará a Dalila em “Sansão e Dalila”. Em termos musicais, meu sonho é deixar todas as óperas de Carlos Gomes gravadas. Também gostaria de resgatar e editar canções de Alberto Nepomuceno, muito bonitas e esquecidas. Os convites para o exterior têm aparecido cada vez mais com freqüência. Muitos eu aceito, outros não consigo por questão de tempo e para não negligenciar o meu trabalho em Manaus. Em termos pessoais, um filho é o grande objetivo.


Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – A mudança na cabeça do músico de orquestra. Está acontecendo no Brasil e também no meio internacional. O músico de orquestra está deixando de ser anônimo. A Osesp em São Paulo despertou uma série de reações diferenciadas e valorizou a música de orquestra. Sabe-se hoje que existe um artista que é o primeiro oboé. A cobrança do próprio músico cresce em relação ao nível do grupo. A melhoria artística dos nossos grandes grupos influencia músicos e maestros mais jovens. Aumentam-se os níveis artístico, técnico e cultural, valoriza-se mais a classe. Assim como vem a mudança de atitude do público. Ainda existe no Brasil uma camada da elite econômica com grande poder de influência que classifica o que vem do exterior como mais interessante e de maior qualidade do que qualquer coisa produzida no Brasil. Pode até ser verdade em alguns casos, mas não é absolutamente em outros. “Vai cantar músico brasileiro? Então não vou. Prefiro viajar e ver ópera no Metropolitan”, dizem. Esse menosprezo sempre me incomodou. Mudanças têm acontecido, mas podemos avançar ainda mais. Estamos em um momento bom. Nossos teatros e nossas orquestras sempre seguiram um modelo paternalista europeu, com o governo assumindo as despesas e os artistas sendo funcionários por um longo período. A parceria iniciativa privada-poder público ainda é insípida, mas tem crescido. Os últimos dez anos foram de mudanças. Acho que os próximos cinco ou dez serão de consolidação dessa nova maneira de se estruturar. Temos que despertar maciçamente a opinião pública para a importância do nosso meio, educar nossa classe política e os marqueteiros das grandes empresas para que deixem de ver nossa atividade como elitista. A postura delas que é elitista, impedindo uma grande camada da população a se aproximar desse tipo de manifestação artística. Em Manaus, nossa temporada sinfônica e sempre gratuita e temos um público imenso. As platéias têm grande sensibilidade para receber o que oferecemos. O público do Brasil é tão virgem que tudo é novidade. Há trinta anos, repertório popular de ópera era “Traviata”. Hoje isso é tão desconhecido quanto “Lulu”. No campo do fazer, as funções têm que ser melhor definidas: administrador, diretor administrativo, diretor artístico, diretor de marketing. A Osesp teve uma importância muito grande por ter sido a primeira a organizar marketing, venda de imagem, busca de patrocínio. Agora, é a vez da OSB. Quanto antes essa divisão das atribuições se desenvolver e se consolidar, melhor. Eu perco um tempo precioso que adoraria estar dedicando às minhas partituras para cuidar do lado administrativo. Maestros têm que cuidar da música e da direção artística, fazer as escolhas e deixar que pessoas da área de administração cultural tomem a frente da área.


Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?

LUIZ FERNANDO MALHEIRO – A existência de VIVAMÚSICA! é um dos aspectos importantes da transformação da atividade do nosso meio musical. Vocês têm uma participação fundamental na divulgação da cena brasileira. Primeiro com a revista para assinantes nos anos 1990, que eu adorava, pois já mostrava a valorização das atividades da classe. Atualmente com o ANUÁRIO, que é um forte indicador de todas essas transformações. Principalmente para o músico que administra, virou um instrumento de trabalho que faz parte do cotidiano. Eu tenho dois exemplares, um fica na minha sala em Manaus e outro com Flávia, em São Paulo.Volta e meia, viro pro meu assistente, Felipe, e cobro: “Cadê o anuário?” Mantenho a coleção completa à mão. Naturalmente, o ANUÁRIO vai me superar em existência, mas espero participar dele por mais alguns aninhos.




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