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Quarta-feira, 20/08/2008

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Entrevista com Leandro Carvalho



Como estava sua carreira em 1998? Onde você estava e quais eram seus planos então?

LEANDRO CARVALHO – Eu havia acabado de lançar o meu primeiro disco como violonista, em 1997, com a obra de João Pernambuco. Esse disco me levou até em Recife.

Lancei lá o CD e Ariano Suassuna sugeriu: “Quer vir continuar seu trabalho aqui? Eu te apadrinho”. Ele era secretário de cultura do governado Miguel Arraes. Então, em 1998, eu tinha 22 anos e fazia mestrado em História Social sob orientação do Ariano. Meu mestrado girava em torno da música em Pernambuco na primeira metade do século XIX. Me dispus a fazer um percurso intelectual na área das ciências humanas para conviver com uma figura como ele. Era um momento de descobrir o Brasil. Eu não conhecia a música brasileira a fundo, não sabia o que era caboclinho nem maracatu. Me lancei sem preconceito e sem pressa. Fiquei quase três anos em Recife. Em uma das primeiras tardes de sábado que passávamos juntos, Ariano me disse: “Eu não vou te ensinar nada que você já não saiba. A gente só vai buscar um caminho”. Minhas expectativas eram continuar construindo uma linguagem no meu caminho como instrumentista. Jamais imaginei me tornar regente.


É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?

LEANDRO CARVALHO – O primeiro marco foi Recife e Ariano Suassuna em 1998.

Em 1999, gravei três discos como violonista. Primeiro, um duo com o Baden Powell, só com músicas do João Pernambuco. Um mês depois, um duo com Turíbio Santos, que havia sido meu professor na adolescência. É algo muito especial gravar com os dois melhores violonistas do Brasil. Nunca imaginei que isso fosse ocorrer. Na seqüência, gravei o disco “Descobrindo João Pernambuco” com mais de 50 músicas, cada faixa com uma formação diferente. Minha vida no Nordeste era conviver com grupos regionais como o Quinteto da Paraíba, em João Pessoa; Quinteto Latino-Americano de Sopros; o Brassil; a Orquestra de Cordas Dedilhadas do Recife. Músicos incríveis como Adelmo Arcoverde, Jarbas Maciel, Dimas Sedícias, que já faleceu, o maestro Duda. De 1998 a 2000, fui violonista titular do “Bloco das Ilusões”. Participava de todos os acertos de marcha (ensaios) e de tudo que o bloco fazia. E a gente só tocava marcha-frevo, aqueles frevos super antigos dos anos 1920 e 1930. Em 2000, outro marco importante: o redirecionamento de toda minha vida quando fui para a Holanda estudar regência em Utrecht. Já tinha estudado regência na graduação. Com o tempo, a vontade foi ficando mais forte. É um processo interno lento. Não se muda assim uma trajetória. Eu já tinha vários discos gravados e tocava violão desde criança. Na Europa, toquei violão no Royal Festival Hall, em Londres, com quinteto de cordas. Foi meu primeiro concerto europeu. No dia seguinte, recebi boas críticas na imprensa e muitos convites para tocar. Mas eu queria estudar regência. Todos os verões eu ia para o sul da Inglaterra, em Canford, onde há um curso de regência fantástico dirigido por George Hurst. Da Holanda, a próxima etapa foi o Mato Grosso. Em janeiro de 2003, eu havia recém-retornado ao Brasil e fui capa de cadernos de cultura de jornais no Rio (O Globo) e São Paulo (O Estado de São Paulo) no mesmo dia. Fui para Mato Grosso descansar, pois meus tios e meu pai moravam lá. Percebi que havia um potencial musical muito grande no estado. Fiz concertos pelo Brasil, já morando em Mato Grosso. Em 2003, começou a negociação para que a Orquestra do Estado de Mato Grosso fosse criada. Eu trabalhei com o secretário de cultura na estruturação de políticas políticas públicas e identificação de prioridades. E nessa estruturação, entrou a orquestra. Ela nasceu em 2005. No ano seguinte, participamos do Festival Misiones de Chiquito, o maior de música barroca do mundo, na Bolívia. Em 2007, gravamos o primeiro DVD pelo Itaú Cultural. Em 2008, uma turnê por 90 cidades pelo projeto “Sonora Brasil”, do Sesc Nacional, e pelo aniversário da Votorantim.


Dez anos atrás você se imaginaria onde está agora?

LEANDRO CARVALHO – Não. Após ter feito todo um percurso como instrumentista, parei e dei um passo para trás. “Agora pára, vou ser aluno de novo”. Mas eu era aluno de conservatório na Holanda e fazia concerto no Royal Festival Hall, coisa que pouco professor lá já havia feito. O processo de formação de regente em países do norte da Europa é muito formal e tradicional. O maestro precisa se viabilizar, estar atento às oportunidades, ao momento político que o País e os estados vivem. Vejo muitos regente bons que simplesmente não serão viáveis, não estão atentos a essas outras questões. Estão atentos única e exclusivamente à música ou a um certo circuito. Muita gente que só se vê regendo em São Paulo ou no Rio, disputando as mesmas orquestras, enquanto o Brasil está se desenvolvendo. Há estados que florescem musicalmente.


Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?

LEANDRO CARVALHO – Ter optado por seguir a regência, mesmo que isso significasse abandonar uma carreira de violonista cada vez mais sólida, com nove discos, concertos no Brasil e no exterior. Trocar o que funcionava bem por um objetivo novo e difícil.


O que o Leandro Carvalho de hoje diria ao Leandro de dez anos atrás?

LEANDRO CARVALHO – Eu diria para acreditar nos instintos. “Siga a intuição, siga os instintos e vamos em frente”. Não ter medo nunca daquilo que o coração está dizendo. Minha ida para a Holanda foi difícil e traumática. Mas, de certa maneira, foi o que me trouxe para Mato Grosso.


Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.

LEANDRO CARVALHO – Se fosse na década anterior, teria sido Turíbio Santos. Nesta década, o encontro musical mais marcante foi com Roberto Minczuk. Tem sido determinante poder conviver com Roberto nos últimos três ou quatro anos. Vejo nele as qualidades que admiro em um maestro. O impacto é enorme.


Tem planos para a próxima década?

LEANDRO CARVALHO – Nos próximos três anos, o objetivo é fortalecer institucionalmente a Orquestra do Estado do Mato Grosso. A orquestra se qualificou ano passado como Organização Social e fizemos um contrato de gestão com governo. A sustentabilidade garante que ela se fortaleça em todos os sentidos, em especial como representante de desejos e anseios da sociedade. Se uma orquestra perde a conexão com a sociedade, por que ela existe? Só para atender à vontade de alguns poucos? Pessoalmente, na minha carreira, gostaria de reger orquestras de outros lugares, ao mesmo tempo em que desenvolvo o trabalho em Mato Grosso. A vida do maestro é de um aprendizado diário. Quando olho pra frente, a vontade é aprender cada vez mais, manter essa atitude diante da vida, diante da profissão, diante da música: estar sempre disponível para o encantamento.


Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?

LEANDRO CARVALHO – A Osesp é o divisor de águas da música clássica do Brasil. John Neschling criou uma nova instituição, reestruturou a orquestra nos moldes administrativos das melhores orquestras do mundo. A qualidade musical foi uma conseqüência de boas condições de trabalho, bons salários, boa sala, uma estrutura comercial moderna e condizente. Desde a inauguração da Sala São Paulo, em 1999, eles estão sempre em primeiro plano. Isso teve impacto nas outras orquestras, nos maestros, acho que até na própria geração de novos músicos. Um moleque de dez anos vai assistir a um concerto na Sala São Paulo e fica louco, quer ser músico também. A Osesp passou a ser padrão de qualidade e referência para o público e para outras orquestras. O governo de outro estado pode consultar o Diário Oficial paulista para conhecer os pormenores. O secretário leva pro seu governador e fala: “Olha só a Osesp, vamos fazer igual aqui”. Os secretários de cultura podem se falar. Cria-se um canal de diálogo oficial e de ótima referência. Em Mato Grosso, eu sigo o exemplo deles em termos de qualidade da gestão. O contrato da Fundação Osesp com o governo de São Paulo nos serviu de base, assim como o regimento interno. Todo mundo quer uma orquestra como a Osesp funcionando no seu estado, ainda que não tenha o orçamento que só São Paulo pode ter. O nosso orçamento é cerca de 10% do orçamento da Osesp, mas o espírito é o mesmo.


Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?

LEANDRO CARVALHO – VIVAMÚSICA! começou como uma pequena semente e, em alguns anos, tornou-se um jatobá de 50 metros de altura. A existência do ANUÁRIO VIVAMÚSICA! coloca a música clássica como o setor mais organizado da economia da cultura no Brasil. Nenhum outro setor tem uma publicação de referência tão completa quanto nós. A metodologia usada é cada vez mais precisa, tem-se cada vez mais confiança na informação. Ela é realmente atualizada, os nomes e telefones compilados são, de fato, úteis. Você liga e atende a pessoa que consta do cadastro. As seções que foram sendo incorporadas gradativamente também contribuíram para um panorama representativo da importância do setor dos clássicos. Todo mundo fica assustado com a multiplicidade de iniciativas. O ANUÁRIO traz uma conexão com o que Ariano Suassuna chama de Brasil real, em contraposição a um dito Brasil oficial. Valoriza todos, desde o pequeno que está lá não sei onde, mas faz um trabalho tão significativo em sua comunidade quanto a Osesp. O Anuário acaba sendo esse reflexo do Brasil todo, completo, real, mais rico e muito mais bonito. Ele mostra, inclusive para patrocinadores, que o setor é muito mais forte do que aparenta ser. Não apenas as grandes orquestras em algumas capitais, somos realmente muito fortes em todo o Brasil. Fica explicito no ANUÁRIO que a prática da música clássica, tanto em termos de concerto como de aulas, prestação de serviço, técnicos etc, é fundamental para toda a sociedade.




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