Quarta-feira, 20/08/2008
Voltar
Entrevista com Isaac Karabtchevsky
Como estava sua carreira em 1998? Onde você estava e quais eram seus planos então?
ISAAC KARABTCHEVSKY – O ano de 1998 me encontra como diretor musical do Teatro La Fenice, em Veneza. Era a minha terceira temporada lá, após ter passado nove anos em Viena, dirigindo a Orquestra Tonkünstler. Minha chegada a Veneza havia sido conseqüência lógica do trabalho desenvolvido em Viena. Como as coisas se entrelaçam na Europa – diferentemente do Brasil – aquilo que se faz em um país tem repercussão em outros. Em 1996, o La Fenice havia pegado fogo pela segunda vez. No dia, estávamos tocando em Varsóvia, o que foi nossa sorte. Veneza foi um período duro, exatamente porque o teatro deixou de existir. Estávamos bifurcados entre duas opções: esperar até que o teatro fosse reconstruído ou tentar uma solução alternativa para que os grupos estáveis não ficassem sem trabalhar. A pior coisa que existe para um artista é se ver privado do exercício diário da sua profissão. Então, o prefeito Massimo Cacciari – que ainda administra a cidade – resolveu fazer uma tenda onde se realizariam os concertos e óperas. Na realidade, era um grande circo sofisticado com uma caixa acústica interna. E qual é a simbologia disso tudo? É que, na Europa, com a memória de duas guerras quase consecutivas, a atividade cultural não é interrompida. Criam-se mecanismos que se adaptam a qualquer situação. Fica garantida a própria preservação espiritual do ser humano, confrontado com tantas angústias e desastres. É necessário até que ele desenvolva sua riqueza interior para sobreviver.
Atuar na desgraça, essa foi a grande lição que eu aprendi. Até o ciclo integral das sinfonias de Mahler fizemos na Tendona. Algumas sujeitas a chuvas e trovoadas, literalmente, já que fui várias vezes obrigado a interromper concertos porque, como era uma estrutura de lona, a chuva batia forte.
Deixei Veneza, em 2002. A minha última obra lá foi “Tristão e Isolda”, de Wagner. Tinha um pessoal da França assistindo e eu fui quase imediatamente solicitado a fazer um concerto com a Orquestra Nacional do Pays de la Loire. Após o concerto, uma comissão de músicos bateu na minha porta e me convidou para ser o titular da orquestra, cargo que ocupo até hoje.
É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?
ISAAC KARABTCHEVSKY – Essa é uma questão muito subjetiva. Desenvolver uma atividade em que se lida diariamente com um grupo de 100 cabeças faz com que os momentos mais marcantes sejam aqueles de pleno contato com essa massa, de plena realização e intimidade. Isso não é fácil fazer, só é fácil dizer. Há, em geral, uma enorme barreira entre o maestro e a orquestra, uma barreira que se consolida em nível psicológico. Uma relação antagônica, como pai e filho ou patrão e empregado. Uma relação psicologicamente difícil. Superar esse obstáculo é sempre uma empreitada e esse fenômeno de auto-superação é que gratifica. Eu diria que os momentos de auto-superação, para mim, foram sempre os inícios das minhas atividades como diretor musical. E isso também se explica psicologicamente. O casamento, na sua fase inicial, é maravilhoso, mas há uma relação de desgaste à medida que o tempo passa. E, para quem não faz análise, essa relação torna-se difícil de ser aceita. Há regentes que entram em desespero depois do terceiro, quarto ano de atividade, exatamente porque não há mais – e nem pode haver – a mesma eloqüência e cumplicidade dos primeiros anos.
Eu diria que os melhores momentos da minha vida foram aqueles que coincidiram com o começo. Digamos ser uma relação simbólica que tem muito a ver com a vida, com uma relação humana. Eu me senti realmente gratificado quando regi pela primeira vez na Basílica de São Marcos a “Segunda Sinfonia” de Mahler. O teatro já tinha pegado fogo. Naquele momento, a “Segunda”, também chamada “Ressurreição”, adquiriu uma amplitude maior, um significado eloqüente. Era uma proposta de que estávamos lá prontos a reconstruir. Na Orquestra Petrobras Sinfônica, eu estou colhendo os benefícios de um trabalho de uma orquestra jovem. Tem apenas vinte anos. Para uma orquestra, é como estar saindo do berço. Mas, o que esses meninos conseguiram fazer com a “Nona Sinfonia” de Mahler no último concerto de 2007 foi uma coisa absolutamente fantástica. Apesar da juventude, é uma orquestra que tem potencial enorme e que vai crescer. Esse foi um momento marcante para mim. E Porto Alegre também, houve lá uma convulsão, eu tive que remodelar a orquestra toda e eu posso dizer que só agora começo a colher os benefícios.
Dez anos atrás você se imaginaria onde está agora?
ISAAC KARABTCHEVSKY – A coisa mais fantástica na carreira de qualquer artista é a ausência de premeditação. Você se deixa carregar pelos acontecimentos. A tecla na qual nos batemos obstinadamente é aquela do estudo constante, é o aprimoramento. Este é irreversível. Ou você faz, ou você sucumbe. Passo de cinco a seis horas diárias em meu estúdio trabalhando e memorizando partituras: elas constituem um material indispensável para minha evolução. Mas, a que ponto pode levar esse estudo e essa constância em relação a uma carreira internacional? Isso, só Deus sabe. Mas você tem que lutar por isso. Porque qual é o propósito daquilo que se almeja como carreira? É você poder trabalhar sempre com boas orquestras. No caso de um solista, é tocar com boas orquestras em boas salas. Não é necessariamente o fator financeiro que determina o impulso de uma carreira, mas a capacidade e a disposição. Fala-se muito em carreira internacional e o que é carreira internacional? Para mim, é uma sucessão de gratificações em nível espiritual que se tem no decorrer de uma vida, não em solo brasileiro.
Algum sonho em especial que tenha realizado nessa década?
ISAAC KARABTCHEVSKY – Não. Mas antes de morrer, eu pretendo ver.
Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?
ISAAC KARABTCHEVSKY – Essa pergunta envolve tantas problemáticas! Acredito que o turning point da minha atividade tenha sido quando procurei, ainda regente da Sinfônica Brasileira – eu estou falando dos anos 1970 – fazer com que a orquestra tivesse uma ligação comunitária e saísse da redoma que a isolava no Theatro Municipal. Não faz sentido uma orquestra existir sem relação íntima com a população e sem compreender os problemas sociais que a cercam. O Projeto Aquarius, com O Globo, foi uma decisão acertada, foi uma decisão que veio no momento justo. Foi essa visão obstinada que me trouxe a possibilidade de desenvolver até hoje, em escala menor, um projeto gratificante. O Aquarius consolidou um aumento de público e deu peso à posição da orquestra perante a sua comunidade. É o mesmo trabalho que estamos desenvolvendo com a Orquestra Petrobras Sinfônica, amparados por uma empresa do porte de uma estatal como a Petrobras. Creio se tratar de um processo irreversível, que faz das orquestras não organismos exclusivos, mas formas atuantes de comunicação popular.
O que o Isaac Karabtchevsky de hoje diria ao Isaac de dez anos atrás?
ISAAC KARABTCHEVSKY – Eu pediria ao Isaac de 1998 que reduzisse o seu ritmo de trabalho e que usufruísse melhor a sua lancha e as suas pescarias.
Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.
ISAAC KARABTCHEVSKY – Houve vários. Um dos mais empolgantes foi com o compositor francês Henri Dutilleux. Ele me proporcionou uma visão totalmente diferente do panorama musical. Outro encontro que deixou profundas marcas foi com Mário Messinis, crítico musical e diretor do Teatro La Fenice. Messinis é um musicólogo fantástico, me ensinou que a música está intrinsecamente ligada à natureza do ser humano. Mas ela obedece a uma lógica que vem desde o homem primitivo até hoje. Desde o surgimento da polifonia até os tempos de hoje, ela tem uma lógica inexorável. Há pouco tempo atrás, outro contato empolgante foi com Pierre Boulez, com quem eu já tinha estudado na Alemanha. Assisti a um concerto com ele em Paris e conversamos longamente. Com mais de 80 anos, Boulez jamais perdeu sua juventude, sua garra, sua vontade de criar. Seus horizontes jamais se fecham. Ele é um homem à procura de elementos novos. Acrescentaria à lista José Antonio Abreu, idealizador do sistema de orquestras jovens e infantis da Venezuela. Político – chegou a ser ministro –, músico, empresário e principalmente um homem de visão. Ele tem uma visão mística, conseguiu ver além de sua época. Abreu é comparável a um Dostoievski. Eu visitei os barrios, que são comparáveis às nossas favelas. A coisa mais empolgante é você ver saindo de lá jovens carregando instrumentos. O movimento de Abreu existe há 34 anos. Ninguém mais toca nele. Os governos consideram um instrumento de ação política.
Tem planos para a próxima década?
ISAAC KARABTCHEVSKY – Esta é uma pergunta que deve se fazer com certa cautela a um homem de 73 anos. Penso de maneira muito pragmática. Que os anos que me restam de vida – que eu espero em Deus que se prolonguem ainda por muito tempo –, com a mesma acuidade auditiva e a mesma percepção, sejam beneficiados pela enorme vivência que tive no meio musical brasileiro e europeu. Que estes anos tragam mais elementos para meu aprimoramento. Eu me considero, hoje, uma pessoa mais condescendente, em todos os níveis. Tenho consciência de minhas fraquezas e limitações e consigo aceitá-las nos outros. Uns vinte anos atrás, talvez não fosse assim. Nos anos que me restam de vida, eu pretendo transmitir minha experiência e deixar rastros nessa estrada que se chama vida. Como o curso que faço anualmente em Riva Del Garda, na Itália. Já é o sétimo ano consecutivo que ensino alunos de todas as partes do mundo, inclusive brasileiros. Minha relação com a Venezuela é cada vez mais forte e deve marcar os próximos anos.
Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?
ISAAC KARABTCHEVSKY – Em termos de visibilidade e consolidação de um projeto, o fator de maior importância foi, sem dúvida, a Osesp. Nos primórdios do projeto, eu ainda estava em São Paulo e não acreditava. Conhecendo o temperamento e caráter do Neschling, pensava que não daria certo. Sou o primeiro a reconhecer que estava enganado. O projeto foi muito bem estruturado. Neschling demonstrou aquilo que eu já antevia, porque somos amigos desde os tempos de Viena: ele é um excelente organizador. Eu tinha dúvidas em relação à manutenção de um projeto que tem a cara do PSDB. E, como todos os projetos de impulso político nesse país, sofreria descontinuidade. Foi uma grande sorte o PSDB ter se mantido no governo nesses últimos doze anos. A orquestra se consolidou como cartão de visitas do Estado de São Paulo. E mesmo que haja alternância política, vai ser muito difícil desmanchar um projeto que atingiu tal nível de excelência e qualidade. Alie-se a isso a visão sensacional de Mario Covas, que eu conheci pessoalmente e não entendia nada de música. Ele teve a percepção que uma orquestra só poderia ser uma grande se tivesse uma grande sala. A conjunção sala, excelência acústica da sala e a orquestra consolidada em moldes internacionais foi o acontecimento mais marcante da década. Mas a proposta só pode ser circunscrita à cidade de São Paulo, à atmosfera e ao nível da classe política paulista. Tentar criar esse movimento em outros estados é perigoso porque ele penaliza humanamente músico, que já vêm se sacrificando em cidades menores para a manutenção de uma atividade cultural permanente. Se ele valeu para São Paulo, não é dito que ele seja aceitável em outros lugares que tenham outras condições, outros contornos. Tenho visto Oscips (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) proliferarem pelo País, como se o formato jurídico desse sustentabilidade a um projeto. Não são as estruturas que determinam o comportamento, são as cabeças que buscam mudanças.
Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?
ISAAC KARABTCHEVSKY – Eu não estaria dizendo tudo isso se não houvesse aqui um veículo tão grande como VIVAMÚSICA!, de importância vital por que possibilita comunicação. Nós poderíamos hoje ser uma atividade exclusiva de um grupo recluso aos teatros e salas de concerto. O ANUÁRIO VIVAMÚSICA! fomenta a difusão da música clássica do Brasil, ampliando o interesse e a visibilidade do setor.
Voltar