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Quarta-feira, 20/08/2008

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Entrevista com Antonio Meneses



Como estava sua carreira em 1998? Onde você estava e quais eram seus planos então?

ANTONIO MENESES – Até 1998, eu fazia carreira de solista, me dividindo entre viagens para tocar em concertos no mundo inteiro e também fazer recitais com piano. Fazia um pouco de música de câmara e dava aulas na academia de música da Basiléia, na Suíça, onde moro há quase vinte anos. Então, eu me dividia entre lecionar e fazer recitais e concertos com orquestras. Meus planos eram continuar exatamente como eu estava. Tocar, gravar, viajar pelo mundo e fazer turnês com orquestras. Era essa a minha vida e era com isso que eu queria continuar.


É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?

ANTONIO MENESES – Fui convidado para fazer parte do Trio Beaux-Arts. Isso mudou bastante minha vida e minha carreira. A agenda de concertos combinando a carreira de solista com o trio fez sobrar pouquíssimo tempo para lecionar. Parei de dar aulas e fiz gravações importantes com o trio para a gravadora Warner, além das minhas próprias gravações. Além de tocar no trio, fiz também muitos recitais com o pianista Menahem Pressler. Um momento especial foi a turnê que fizemos os dois apresentando as sonatas e as variações de Beethoven.

Outro marco importante da minha carreira nesta década foi quando, tendo gravado as suítes para violoncelo solo de Bach pela segunda vez, fiz uma turnê pelo Brasil apresentando as suítes e outras seis obras escritas especialmente por compositores brasileiros como Marlos Nobre, Edino Krieger e Almeida Prado, apenas para citar três deles. Eles compuseram prelúdios para cada um para uma das peças de Bach.


Dez anos atrás você se imaginaria onde está agora?

ANTONIO MENESES – Eis uma pergunta difícil de responder. Eu sempre me imaginei fazendo o que faço: ser músico, tocar, viajar pelo mundo. Um aspecto diferente nessa década foi ter viajado muito para fazer música de câmara – que eu não fazia antes – para tocar com o Trio Beaux-Arts. As turnês com o trio são diferentes: elas levam de cidade em cidade durante duas ou três semanas. Em abril de 2008, por exemplo, uma turnê nos levará a fazer dezenove concertos em 21 dias, em cidades diferentes dos Estados Unidos. Quem toca trio ou quarteto faz turnês sempre assim. Como solista, só uma ou duas vezes ao ano, alguma orquestra me leva de cidade em cidade. Fora isso, minha vida é estar aqui na Basiléia, viajar para Madri, tocar dois ou três concertos lá e voltar, ou mesmo ir para uma cidade, dar um recital e voltar. Ou então, uma turnê para o Japão, como a programada para maio. Alguns recitais, alguns concertos com orquestras e volto.


Algum sonho em especial que tenha realizado nessa década?

ANTONIO MENESES – Finalmente consegui gravar todas as sonatas de Beethoven com Menahem Pressler, prestes a sair em CD. Um sonho de longa data que eu consegui realizar. Tocar com um músico do calibre de Pressler é algo realmente muito especial. Considero muito importante registrar meu trabalho. Eu consegui realizar vários registros. As seis suítes de Bach pelo selo Avie, da Inglaterra e, mais recente, todas as sonatas de Mendelssohn.


Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?

ANTONIO MENESES – Eu diria que foram dois acertos. Primeiro, ter entrado para o Trio Beaux-Arts. Isso me abriu um campo de trabalho bastante importante e me abriu os olhos para uma maneira de tocar, de ver música, diferente da que eu tinha antes. Segundo, ter começado a gravar para o selo Avie, com que eu tenho desenvolvido um trabalho muito bom. Já vou para o quinto CD lançado. Tenho total liberdade. Para eles, é importante gravar aquilo que possa fazer bem, não há imposições. Eu sempre ouvi falar de colegas obrigados a fazer o que a gravadora impunha. Com a liberdade que o selo Avie me dá, posso me preparar bem para o repertório que vou gravar.


O que o Antonio Meneses de hoje diria ao Antonio Meneses de 10 anos atrás?

ANTONIO MENESES – Eu diria que estudasse mais, que ficasse mais atento para sentar, trabalhar e pensar sobre o que está fazendo. Diria o mesmo ao Antonio de vinte anos e de trinta anos atrás também. E é o que eu tento fazer agora. Penso que não se deve perder tempo. Fiz 50 anos, olho para trás e vejo a quantidade de tempo que poderia ter aproveitado melhor.


Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.

ANTONIO MENESES – O encontro mais importante foi o Trio Beaux-Arts. Trabalhar com Menahem Pressler, com o Yung Uck Kim – o primeiro violinista – e agora com o Daniel Hope. Tem sido um trabalho de quase dez anos. Algo muito diferente do que vivia antes e muito marcante.


Tem planos para a próxima década?

ANTONIO MENESES – Eu não diria para os próximos dez anos, mas para os próximos anos eu tenho. Posso comentar alguns deles. Outros não quero comentar porque são planos bastante altos. Quero vê-los primeiro realizados para depois comentar.

A contribuição com o Trio Beaux-Arts está acabando. Vou voltar a me concentrar na carreira de solista. Já comecei também a lecionar no Conservatório de Berna, na Suíça. A princípio, minha vida voltará a ser parecida com dez anos atrás. Vou me apresentar mais como solista. Quero retomar um certo repertório que negligenciei, obras que, por falta de tempo, por falta de possibilidade, não pude tocar. E estou dando aulas com um prazer renovado. Lecionar vai ser algo importante para o resto da minha carreira, o resto do meu tempo ativo como músico. E eu quero, também, voltar a fazer mais repertório novo para solista, também. Quero me dedicar mais ao repertório que negligenciei: não só uma parte do repertório do século XX, mas também o repertório barroco. Quero voltar a fazer recitais, por exemplo, com cravo. É uma coisa que eu tinha começado a fazer com Rosana Lanzelotte e nós vamos voltar a trabalhar nesse sentido. Fizemos sonatas de Vivaldi e queremos também repertório de compositores que eram violoncelistas, como Boccherini, Gratiani e Barrière. Eu quero voltar a me dedicar mais a esse tipo de repertório.

Meu objetivo tem sido sempre me tornar um artista que, cada vez mais, sente e entende a música que faz. E esse vai continuar sendo meu objetivo, é um trabalho para a vida toda, talvez, um trabalho eterno. Tenho a impressão que isso tem se realizado. Com o tempo, eu entendo e me sinto melhor como músico. Então, continua sendo esse o objetivo da minha vida. Não tanto a carreira, mas o artista em si que é importante para mim.


Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?

ANTONIO MENESES – Algumas coisas positivas maravilhosas aconteceram no Brasil. Quando mais jovem, eu nunca pude imaginar que o nosso País teria uma orquestra como a Osesp. Talvez seja o maior exemplo do que é possível se alcançar com trabalho, força de vontade e suporte do governo. Acho a Osesp um dos melhores exemplos do mundo orquestral nos últimos anos, não só no Brasil. É o tipo da coisa que acontecia nos Estados Unidos no final do século dezenove e que, no Brasil, aos poucos, está acontecendo. Existem algumas organizações que estão bem organizadas já com um ano, um ano e meio e até dois anos de antecedência. Mas ainda há as que continuam como antigamente: até pouco antes do concerto, não se sabe se o evento vai acontecer ou não.


Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?

ANTONIO MENESES – Exatamente isso que fizemos agora: algum tipo de entrevista. É importante saber o que está acontecendo no panorama da música no Brasil de forma geral, mas as entrevistas sempre colaboram para compreender melhor o que acontece. Gosto das entrevistas do ANUÁRIO.




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