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Quarta-feira, 20/08/2008

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Entrevista com Alex Klein



Como estava sua carreira em 1998? Onde você estava e quais eram seus planos então?

ALEX KLEIN – Em 1998, eu estava na terceira temporada com a Orquestra Sinfônica de Chicago. Havia me consolidado como primeiro oboísta lá. Tinha segurança de emprego, casa comprada. Qualquer músico que entre para aquela orquestra precisa de dois anos de ajuste para alcançar a velocidade do bonde. Em 1998, eu sentia: “esse é o meu lugar!”. Tinha planos para gravar discos e lecionar na Northwestern University. Mas eu já estava doente e não sabia. A distonia começara a se manifestar anos antes, com sintomas estranhos como pesadelos, dificuldade de respiração, dores no peito. Mais tarde, eu descobriria que as dores no tórax eram resultado de uma extrema tensão nos músculos da mão esquerda.


É possível traçar uma cronologia com os fatos mais relevantes da sua carreira no período 1998-2008?

ALEX KLEIN – Em setembro de 1998, gravamos o concerto de Richard Strauss para oboé e orquestra, que foi lançado em 2001 e ganhou o Prêmio Grammy no ano seguinte. Em agosto de 2000, fiz a primeira audição do concerto do brasileiro Marco Aurélio Yano com a Filarmônica de Buenos Aires no Teatro Colón de Buenos Aires. Foram os meus últimos seis meses de tranqüilidade. Em novembro de 2000, quando tocava “Pedro e o Lobo” em Chicago em um concerto para crianças, tive que imitar um pato, com as pernas meio abertas. Puxei um músculo da perna e comecei a sentir muita dor. Um médico me receitou esteróides e a dor passou.

Dois meses depois, tive que aprender uma música nova escrita para mim e senti uma dificuldade estranha. Depois descobri que o problema na perna havia desestabilizado minhas costas. Até aquele momento, todos os músculos das costas e braço haviam se ajustado subconscientemente para me permitir tocar. Quando puxei a perna, desestabilizou tudo. Os esteróides que tomei deram força artificial aos músculos, quando o que eu precisava naquele momento era massagem. Meu dedos atrofiaram.

Em abril de 2001, vim para São Paulo fazer o concerto de Mozart com a Osesp. Tinha que estudar uma hora antes dos ensaios ou não conseguia tocar. Fiquei desesperado. Recorri a shiatsu e quiropatia. De volta, fui a neurologistas e especialistas em problemas relacionados a execução musical, fiz tratamentos em clínicas especializadas, procurei medicina alternativa. Consultei mais de 30 médicos. Cheguei fazer vários tratamentos simultâneos, inclusive para Mal de Parkinson. Fiz exame de tudo, até para verificar se havia tumor no cérebro. Recebi o diagnóstico final de distonia ainda em 2001 e avisei a orquestra.


No que consiste exatamente a distonia?

ALEX KLEIN – Trata-se de uma doença neurológica que atinge apenas alguns neurônios. Imagine a fiação elétrica de uma casa. Algo acontece na tomada da geladeira e ela pára de funcionar, mas o resto da eletricidade segue perfeito. No meu caso, a doença atingiu alguns neurônios que me fazem tocar oboé. Eu consigo usar os dedos perfeitamente para tocar qualquer instrumento, inclusive o oboé d’amore e o corne inglês. Mas para tocar oboé surgiu uma dificuldade que não existia antes. Danificou-se a linha de conhecimento que montei durante 30 anos para tocar de forma precisa e afinada, para soprar da maneira correta. Já a linha de conhecimento para tocar corne inglês não foi afetada. Parece misterioso, mas a neurologia explica.

Eu recebo do cérebro a informação de que o dedo está para baixo, quando ele está para cima. Para “enganar” meu cérebro, fiz uma extensão no oboé e toco de lado. Consigo tocar cerca de uma hora até que o cérebro perceba. Aprendi a viver com o problema. Faz anos que não tenho tendinite.

Distonia focal é quase uma epidemia entre músicos no Brasil e no exterior. Dados indicam que 1% dos músicos tem a doença. Então, aproximadamente um profissional em cada orquestra sofre de distonia – e eu já vi lugares em que a incidência é ainda maior.

A distonia traz outro problema muito sério, a depressão. Sou profissional desde os onze anos de idade. Passei a juventude sendo aplaudido, não vivi aqueles dilemas típicos da idade como “quem sou? o que vou fazer da vida? as pessoas gostam de mim?”. Então, aos 36 anos, um médico diz que não vou mais tocar oboé. Tive que voltar aos onze anos e refazer a minha vida. Passei por uma crise de identidade terrível. É como se agora o meu nome fosse Roberto, eu tivesse nascido no Mato Grosso e fosse cortador de cana.


Como a distonia modificou a sua carreira nesta década?

ALEX KLEIN – Quando o diagnóstico se confirmou, comecei a pensar em outras opções, como ir para a Finlândia estudar regência. Ao mesmo tempo, recebi o convite para dirigir a Oficina de Música de Curitiba e comecei lá em janeiro de 2002.

Saí de licença médica quando, em pleno ensaio da Sinfônica de Chicago, eu não consegui tocar uma nota sequer. Os colegas olhando com carinho e eu me sentindo um completo fracasso. Na mesma semana, minha esposa pediu o divórcio.

Na ocasião da vitória no Grammy, em 2002, não fui à cerimônia nem assisti pela TV. Recebi um telefonema e soube que ganhei. Não senti prazer algum. Ganhar o Grammy não tinha qualquer significado: o que eu queria era organizar minha vida.

O ano de 2003 foi muito difícil, sofri com tendinite ininterruptamente e meu divórcio saiu. Cancelei viagens e tive problemas no Japão, na última grande turnê que fiz com a Sinfônica de Chicago. Eu continuava tocando na orquestra, mas precisava de um ano inteiro de tratamento. Eles não poderiam me licenciar por tanto tempo. Em 2004, outra licença médica por seis meses. Ainda na licença, toquei meus últimos concertos com Daniel Barenboim regendo a orquestra e depois me desliguei. Sem emprego, tive que voltar para o Brasil. Estava gastando 3.500 dólares por mês em tratamentos médicos.

Voltei para a casa dos meus pais. Em 2004, no que seria o ponto alto da minha carreira, eu estava no fundo do poço. Fiquei no sofá da sala três meses vendo televisão. Tentava estudar, mas logo vinha a tendinite. Eu ainda conseguia tocar alguma coisa de oboé e precisava fazer a transição de carreira para a regência.

Comecei a participar de um festival no Panamá e lá conheci minha esposa. Nessa época, eu já ia bastante para a China, fazendo o festival de oboé. Comecei a reger aos poucos, contando com oportunidades oferecidas por bons amigos.

Fiquei na Oficina de Música até 2005. No ano seguinte, comecei o Festival de Música de Santa Catarina (Femusc), na cidade de Jaraguá do Sul, uma empreitada com muitos desafios e muitas recompensas. O Femusc dialoga com a sociedade local de maneira muito forte. Em 2008, na terceira edição, conseguimos comprar cinco harpas e um piano de cauda.

Desde 2003, participo do Festival de Música Saint Barts, no Caribe, como regente. Sou também o principal regente convidado do Festival Sunflower no Kansas (EUA), que reúne músicos das grandes orquestra americanas. Ano passado, tornei-me professor de oboé do Conservatório Oberlin, em Ohio (EUA), onde me graduei nos anos 1980. Dou aula lá quatro meses por ano.

Quanto à distonia, as coisas estão melhorando. Lancei recentemente um CD de câmara gravado com Richard Young e Ricardo Castro.


Dez anos atrás você se imaginaria onde está agora?

ALEX KLEIN – Não, meus planos eram ficar em Chicago por trinta ou quarenta anos e me aposentar lá. Não esperava tudo que viria a acontecer.


Algum sonho em especial que tenha realizado nessa década?

ALEX KLEIN – O paradoxo é que alguns sonhos se realizaram a partir da saída traumática de Chicago. Realizar festivais de música para jovens e reger eram sonhos antigos, mas eu não tinha tempo. Sempre gostei de ensinar e tocar pelo mundo. Tenho ido anualmente para festivais em Jerusalém, Panamá e México. Não consigo aceitar todos os convites. Minha agenda em 2008 está lotada a cada semana.


Qual foi seu principal acerto, a decisão melhor tomada na década?

ALEX KLEIN – Voltar para o Brasil. Foi muito doloroso lidar com a doença, me confrontar com o término da carreira como eu a havia estruturado e vivenciar o divórcio. Abandonei tudo e voltei para a casa da mamãe. O jogo zerou. Fiquei meses no sofá, mas passou. Pude recomeçar e re-estruturar minha vida. O oboísta morreu no momento em que vim de Chicago para o Brasil. Não sou mais oboísta, eu toco oboé, tenho um passado como oboísta. Hoje eu sou uma variedade de coisas. Não me considero completamente maestro ou professor. Adoro o Femusc, adoro reger orquestras, adoro tocar oboé e adoro lecionar.


O que o Alex Klein de hoje diria ao Alex Klein de 10 anos atrás?

ALEX KLEIN – Não apenas ao Alex de 1998, mas a todos os Alexes que já fui, eu transmitiria a certeza que os princípios básicos do que sou devem estar presente em todas as decisões. Aprendi que para ultrapassar problemas precisamos saber quem somos e para que somos. São poucas as coisas que importam. A vida, na verdade, é bem simples.


Cite um encontro artístico especialmente marcante desta década.

ALEX KLEIN – Em novembro de 2005, quando Daniel Barenboim fez a última turnê com a Sinfônica de Chicago. Ele me convidou para ser solista no Carnegie Hall, em Nova York. Barenboim queria reunir, na turnê, os elementos que melhor caracterizaram os dezessete anos em que foi diretor artístico. Renovar o som da orquestra, em especial as madeiras, foi uma de suas marcas. Fizemos a “Sinfonia Concertante”, de Mozart, com solos de oboé, clarineta, fagote e trompa. Eu já tinha saído da orquestra e não era nem mais oboísta.

Ser convidado por Barenboim e fazer parte da celebração em Nova York foi muito importante. Ele não precisava ter feito isso. Senti que serei pelo resto da vida um membro daquela orquestra. Os colegas me ajudaram muito quando o abismo estava ali na frente.


Tem planos para a próxima década?

ALEX KLEIN – Acredito que minha carreira vá se desenvolver mais na Europa e que a regência se intensifique, mas não sei se chegarei a ser diretor artístico de uma orquestra. Continuarei desenvolvendo festivais no Brasil, como o Femusc e o novo festival de música de câmara, em agosto, em São Paulo, com dez dias de concertos. Vou continuar buscando maneiras de colaborar na formação de músicos jovens e aumentar o envolvimento com a comunidade de Santa Catarina.


Que mudanças mais significativas observa no panorama clássico brasileiro nos últimos dez anos?

ALEX KLEIN – A consolidação da Osesp como ponto de referência de excelência. Ainda que muitas vezes à base de controvérsias, é uma orquestra de primeira linha. Organizada, com programação bem feita, variada, músicos extremamente focados, com uma sala de acústica adequada. Agradecemos muito ao governo do estado de São Paulo por mostrar a luz no fim do túnel. A experiência da Osesp serviu como estopim para outras manifestações orquestrais não só em São Paulo, mas no resto do Brasil. As orquestras agora têm uma nova esperança.


Sua avaliação sobre o papel de VivaMúsica!, em especial o Anuário, nestes últimos dez anos. O que chama mais atenção?

ALEX KLEIN – VIVAMÚSICA! tem sido com a Osesp: uma luz que une nossos propósitos. Muitos no Brasil são desunidos. Uma publicação como o ANUÁRIO VIVAMÚSICA! possibilita a união. Podemos ver o que está acontecendo pelo País, quem somos, como estamos sendo representados, o que estamos fazendo. Isso é muito importante e agradecemos muito a presença de vocês. Nunca vi VIVAMÚSICA! tomar partido de desavenças ou criar atritos entre artistas. Vocês ficam acima de questões menores. Espero que continue sendo sempre assim.



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