Por Ricardo Prado

O maestro Claudio Abbado diz que Gustav Mahler tinha talento até para sofrer. Ou foi Bernard Haitink? Não importa. O que é mesmo importante é essa gravação da sua Canção da Terra – Das Lied Von der Erde – na versão camerista e incompleta de Arnold Schoenberg, concluída por Rainer Riehm. Um primor.
Mahler sofreu a vida inteira, mas uma sucessão insuportável abateu-se sobre ele em poucos anos – a saída da Ópera de Viena, a morte da filha de 4 anos, a traição de Alma, sua amada esposa; a doença cardíaca que o mataria. Foi nessa nessas circunstâncias que Mahler escreve esta sinfonia-ciclo de canções, como nos ensina Lauro Machado Coelho no texto de apresentação como sempre breve, denso e saboroso.
As canções foram compostas sobre poemas do livro A Flauta Chinesa, traduzido por Hans Bethge. Ali ele encontrou a voz que precisava para expressar-se, para cantar tantas dores e perdas, tantas possibilidades para tentar desviar as atenções do destino que parecia proibir que qualquer compositor alemão depois de Beethoven compusesse mais do que nove sinfonias.
Mahler parece sempre compor música de câmera, mesmo quando reúne elencos formidáveis para as suas sinfonias. Aqui, nessa versão, a orquestra foi reduzida a um quinteto de cordas, um de sopro, piano, celesta, harmônio e percussão. O conjunto desta gravação foi batizado de Algol Ensemble e reuniu músicos admiráveis; um time dos sonhos que vibrou coeso e delicado, preciso e intenso. Acompanharam a interpretação madura, concentrada e íntima do tenor Fernando Portari e do barítono Rodrigo Esteves com um cuidado amoroso. A leitura do maestro Carlos Moreno abdica dos exageros suspirosos com que, em geral, lê-se por aí o que é, de fato, contenção; sua condução respira e pensa, reflete, ilumina, contêm-se, como as melhores interpretações. Nesta obra feita de imponderável e inesperado, de fragmento e surpresa, de dor e de exaltação, ele, seu Ensemble e os solistas – sem qualquer limite, sem nenhuma separação perceptível – realizaram uma execução amalgamada e total. Fizeram música. Nada menos. Nada mais. Como é raro. E como é belo.
A Algol Editora já conquistou um lugar superior na história da cultura musical no Brasil. Com esta edição de Canção da Terra ela ocupa agora um lugar único e exemplar.
Serviço
CD “Das Lied von der Erde” (“A canção da Terra”)
Obra de Gustav Mahler, em arranjo de Schoenberg & Riehm
Fernando Portari, tenor
Rodrigo Esteves, barítono
Algol Ensemble
Carlos Moreno, regente
1. Das Trinklied vom Jammer der Erde ("A Canção-brinde à Miséria da Terra")
2. Der Einsame im Herbst ("O Solitário no Outono"),
3. Von der Jugend ("Da Juventude"),
4. Von der Schönheit ("Da Beleza"),
5. Der Trunkene im Frühling ("O Bêbado na Primavera")
6. Der Trunkene im Frühling ("O Bêbado na Primavera")
Duração: 66:19




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