VivaMúsica!

Sunday
Feb 05th

Anuário VivaMúsica! 2009

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O Anuário VivaMúsica! 2009 repete a fórmula de sucesso de anos anteriores.

 Reúne contatos atualizados de organizações e pessoas do meio musical clássico brasileiro, recursos técnicos e mapas das principais salas de concerto; temporada nacional de clássicos; aniversários musicais do ano e textos que estimulam a reflexão sobre o próprio meio. 

A 11ª primeira edição do guia de negócios da música clássica do Brasil traz um dossiê especial sobre a composição clássica brasileira hoje.

Mais de 50 criadores expuseram seus pontos de vista sobre a atividade. Intérpretes, representantes do governo e gestores também foram ouvidos. Uma mesa-redonda reuniu três gerações de compositores: Jocy de Oliveira, João Guilherme Ripper e André Mehmari. Ney Rosauro, que mora em Miami, participou da mesa por telefone. São publicados contatos de mais de 100 compositores brasileiros. A partir de agora, estes importantes criadores passam a fazer parte do Anuário.

A tiragem de oito mil exemplares circula de forma dirigida no Brasil e no exterior, entre profissionais e decisores de música clássica, músicos e estudantes, profissionais de mídia, gestores culturais, órgãos governamentais e patrocinadores de cultura.

O Anuário VivaMúsica! 2009 custa R$ 59. A venda de exemplares é feita pelo site http://www.causasonora.com.br/.
 

LEIA ABAIXO A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DO COMPOSITOR E MAESTRO ALCEO BOCCHINO, PUBLICADO DE FORMA CONDENSADA COMO TEXTO DE APRESENTAÇÃO DO ANUÁRIO

 
O TEMPERAMENTO E O LUGAR DA COMPOSIÇÃO - O crítico Andrade Muricy dizia que eu sou como uma concha. Pouco me manifesto, raramente apareço.

Sou pianista, regente, professor e compositor, além de ter me formado em Direito (fiz duas defesas, briguei com o escrivão, depois com o juiz e encerrei a carreira).

Destas quatro atividades na música, a composição se situa no topo. Uma vez, Francisco Mignone me telefonou e disse: "Vem pra cá e eu te obrigo a escrever. Deixa o piano e a regência, vem compor". É o que fica, dizia ele.

Recebi influências e diretrizes de Camargo Guarnieri, Mignone e Villa-Lobos. Todos me deram orientação e informação, trocávamos muito. Mas aulas mesmo, nunca tive. Sou completamente auto-didata, tanto na composição como na regência.


O INÍCIO DA VIDA DE COMPOSITOR - Comecei a compor no Paraná. Eu era pianista, também tocava violino e, às vezes, compunha. Uma de minhas primeiras peças foi o "Bailado do trigo", que levei um mês para orquestrar. Também fazia canções para minhas irmãs cantarem na rádio local. Na época, não tinha formação alguma de composição. As únicas aulas que tive foi com Hans Poek, colega de Karajan. Quando ele foi para o Paraná, vindo de Salzburg, o procurei. Ele me deu boas noções de composição.

Nesta época, também fiz algumas peças de piano. "O tema do relógio", exeqüível até hoje, é uma espécie de caixinha de música. E também um "Noturno", editado pela Vitale, e "Saci-pererê". De orquestra, tinha um conjunto pequeno que foi tocado em uma cerimônia simples. Nada mais.
 

A IDA PARA SÃO PAULO - Um amigo de infância me levou a Santos para que eu me apresentasse como pianista. Lá conheci o cunhado de Monteiro Lobato, que me convidou para morar com ele São Paulo. Lobato frequentava a casa, conversávamos muito. Ele dizia "Teu mal é se chamar Bocchino, nome de gringo italiano. Por aqui tem muito italiano, ninguém te dará bola. Se você se chamasse Bokinievsky ou Bokiniovsky, estava feito!". Um dia, toquei minhas composições no Conservatório Dramático Musical. Estava lá o Caldeiras, do jornal O Estado de S. Paulo, que fez uma critica excelente. Mas voltei para Curitiba e comecei a lecionar para poder viver.

Depois, uns amigos do Paraná, Túlio de Lemos e Luiz Drumond Navarro, foram para São Paulo escrever programas da rádio Tupi e me convidaram. Passei a ter que orquestrar para a radio, coitado de mim. Eu tinha levado um mês pra fazer o "Bailado do trigo" e agora precisava fazer pelo menos duas orquestrações por semana, de música popular. Ficava lá escrevendo, treinando, ouvindo.

Quando nossos pracinhas vieram da Europa, houve uma cadeia de radiodifusão e um concerto. Eu aceitei reger a orquestra sinfônica, programei um arranjo meu meio presunçoso e a suíte "Peer Gynt", de Grieg. Fiquei mais conhecido.

Em São Paulo, recebi umas aulas do Camargo Guarnieri. Aulas não são o melhor termo, mas indicações. Levei uma obra para ele e perguntei: "Acha que vale a pena eu estudar composição?". Ele respondeu: "Não é questão de valer a pena. Você tem o dever!". Depois, ele brigou comigo. Tivemos uma discussão sobre forma musical na casa de Mozart Araújo.
 

A IDA PARA O RIO DE JANEIRO - Um dos novelistas da Tupi, Otavio van Pré, me trouxe para o Rio de Janeiro. Trouxe uma carta de um velho compositor me recomendando para Villa-Lobos. No nosso primeiro encontro, logo começamos a conversar. Villa se apegou a mim e a coisa correu. Uma vez, estávamos no Conservatório de Cantro Orfeônico e ele conversava tanto, ficava tão à vontade comigo, que eu tive que interromper a conversa. "Maestro, eu devo estar atrapalhando o senhor. O senhor tem mais o que fazer. O Brasil espera muita coisa do senhor". Fiz a primeira execução do seu "Concerto para piano e orquestra N. 5". Villa já estava morto. Assim como o "Concerto de violão", a primeira audição também foi minha.

Tive um contato com Luciano Berio no primeiro Festival de Música de Vanguarda, organizado por Eleazar de Carvalho. Isso tudo foi abrindo meus horizontes. Eu fazia um atonalismo sistemático e também dodecafonismo, serial, às vezes pontilhista.  Discuti com Berio de igual para igual. " 'Alelulia 2', essa obra é pontilhista", disse a ele. "Sim, acontece de ter alguma coisa, mas é serial", respondeu Berio. Tocamos "Aleluia 2" com cinco orquestras pequenas, simultaneamente, no Theatro Municipal do Rio. Eu dirigi do balcão simples. E assim fui crescendo na composição.
 

AS OBRAS E O PROCESSO CRIATIVO - Vasco Mariz diz que tenho quase 30 obras de canto. Confesso que não sei o número total de composições. Não são muitas, mas as de que eu gosto são boas, felizmente. A "Sonatina" já foi estudada na Universidade de Campinas e a "Sonatina domestica" fiz para meu pai e minha mãe. Fiz algumas transcrições de canto. O violinista Daniel Guedes gravou duas peças e está esperando um concertino meu. Tem tocado em muitos lugares. Edino Krieger as considera obras primas, mentira, são apenas boas obras. A "Sinfonia" me deu um trabalho que não foi brincadeira. São 30 mil notas, o computador contou. Com as repetições, 60 mil notas. Considero a "Sonatina" e a "Sinfonia" boas.

Tem gente que escreve a torto e a direito. Eu, quando acordo, estou com uma melodia na cabeça. Sonho que estou compondo, componho sonhando, mas acho que a composição deve ser alguma coisa muito penada. O Boulez dizia: "toda composição deve se precedida de planejamento". Às vezes, estou correndo os dedos no piano e surge uma idéia. "Opa, vou aproveitar isso", digo para mim mesmo.

Duas melodias da "Sinfonia" têm raízes nos tempos de rádio. Eram boas, mas ficaram esquecidas por muitos anos. Há outras de que eu fico desconfiado: "será que isso tem alguma coisa de outro compositor?". Quando eu tinha seis anos, havia uma valsa chamada "Branca". Minha mãe sempre cantarolava a melodia. Meus pai cantava serenatas napolitanas quando estava de bom humor. Nossos vizinhos tinham muitos filhos: três eram pianistas e duas cantavam. Essa música toda ficou na minha cabeça.

Você está aqui e ouve Boulez, Bartók, Tchaikovsky. Villa-Lobos. Há um mundo de referenciais. Esse é meu ponto de vista: a música está no ar.

Às vezes, sinto vontade de fazer uma coisa romântica. Faço. Serial, faço. E alguns desenvolvimentos dodecafônicos também.
 

A ATIVIDADE NA REGÊNCIA - Como regente, fiz o possível e o impossível. Fui um dos organizadores da Orquestra Sinfônica Nacional - ligada à Universidade Federal Fluminense (UFF) - fui titular quatro anos da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e também estive envolvido na fundação da Orquestra Sinfônica do Paraná. Fiz primeiras audições de Radamés Gnattali, Camargo Guarnieri e Villa-Lobos. Villa era um homem de gênio forte, mas elegantíssimo.  Uma pessoa muito boa na intimidade.

Na OSB, fiquei quatro anos como regente e presidente da comissão artística. Isso foi nos anos 1940 e 1950. Na Sinfônica Nacional, participamos da fundação eu, Mignone, Eleazar de Carvalho e Edino Krieger. Mignone e eu fizemos os testes para aproveitamento dos músicos que vinham da orquestra da rádio MEC. Fiz na hora uma cadência de violino na hora. Esta obra foi gravada pelo Daniel Guedes recentemente. Neste período, fizemos grandes coisas.

Outra passagem importante da minha carreira como regente foram os sete acompanhamentos que fiz durante o Primeiro Concurso de Violino e Piano do Rio de Janeiro, nos anos 1950. No mesmo dia, acompanhei três violinistas. Um deles era o Patrice Fontanarosa. Eram dois concertos de Tchaikovsky e um de Brahms. No dia seguinte, acompanhei quatro pianistas - Rodolfo Caporali era um deles, Naquele dia, fiz o primeiro de Brahms, o quarto de Beethoven, o segundo de Chopin e o primeiro de Prokofiev. Sendo que não se tinha a partitura do Prokofiev, eu não conhecia o concerto direito. Peguei a parte de piano emprestada com o Jacques Klein e estudei nela. O material só chegou no dia do concerto!


A ATIVIDADE COMO PROFESSOR - A atividade de professor me agrada muito. Maximiano Cobra é cria minha. Dei aulas de composição a Tom Jobim, no início da carreira dele. Tom não queria saber nada de música séria, não era a natureza dele. Era poeta e músico, uma cabeça formidável. Tocava piano bem, tinha estudado com Teran. Ele ia a minha casa e às vezes ficava para o almoço. Invadia a cozinha e perguntava pra cozinheira: "tem banana flambada hoje?".

Tenho que ter uma atividade. Ainda mais na minha idade. Com 90 anos, se eu parar, caio. Hoje, só dou aula para professores. Sou "professor de plantão" na Escola de Música Villa-Lobos, no Rio de Janeiro: dou aula pra um, informação para outro. Gosto muito do trabalho do regente brasileiro Osvaldo Jardim Vieira, radicado em Macao.


O ANUÁRIO VIVAMÚSICA! 2009 E OS NOVOS COMPOSITORES- Adorei o material do Anuário. Eu não conhecia todos aqueles compositores listados, foi uma surpresa agradável. Eu me comovi quando olhei o material. Está uma beleza. Vai fazer com que os brasileiros tomem conhecimento que existem muitos compositores em muitos estados.

Uma palavra aos novos talentos da composição? Em primeiro lugar, estudem muito, não apenas nos livros, mas, sobretudo, nas grandes obras compostas por grandes compositores. No meio dos estudos, cultivem a humildade. Sem humildade, não se vai avante. 

 

 
Anuário VivaMúsica! 2011

Clique na capa e leia on-line todo o Anuário VivaMúsica!

Em sua 13ª edição, o ANUÁRIO VIVAMÚSICA!, organizado pela jornalista Heloísa Fischer, segue com a sua proposta de estimular a ação dos que fazem girar a cadeia produtiva dos concertos no Brasil. Em 2011, o periódico reúne dados atualizados do meio clássico brasileiro, incluindo recursos técnicos de 33 salas de concerto em diversas cidades do país, e discute novos formatos de apresentar música clássica para os jovens.

O principal guia de negócios da música clássica do Brasil traz como tema em 2011 “Concertos para juventude versão 2.0”. A pauta em discussão busca exemplos de 13 projetos internacionais que já testaram e consolidaram com sucesso a experiência de apresentar clássicos para os jovens a fim de promover uma reflexão a respeito de como muitas destas ideias podem ser aplicadas no Brasil. Projetos organizados por orquestras, salas de concerto, grupos musicais e casas noturnas.

Publicado ininterruptamente desde 1998, o ANUÁRIO VIVAMÚSICA! tem tiragem de 8.000 exemplares, com circulação dirigida nacional e internacionalmente, chegando aos principais profissionais em instituições no Brasil e em países da Europa, da Ásia, da América do Sul e da América do Norte. Todos os textos do livro têm tradução para o inglês, a fim de atender também aos leitores estrangeiros.

Exemplares avulsos custam R$ 64,00 e estão à venda exclusivamente pelo site Causa Sonora. Clique aqui para comprar - o link redirecionará você para o www.causasonora.com.br

 

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